Projeto “Artesanato Local e Poluição Visual” – Açorbordados

Projeto “Artesanato Local e Poluição Visual”

A Câmara Municipal de Angra do Heroísmo aceitou o desafio lançado pela Organização das Cidades Património Mundial (OCPM), e realizará uma entrevista por mês a um artesão local. O projeto “Artesanato Local e Poluição Visual” tem como objetivo demonstrar e divulgar as raízes e tradições de todas as cidades que fazem parte da organização, promovendo em simultâneo a arte e o artesão, com o intuito de solidificar a presença destas artes e ofícios tradicionais na comunidade local e dar a conhecer além fronteiras.

Entrevistada: Sr. Luís Costa proprietário da Açorbordados
http://www.acorbordados.com


Entrevista ao Sr. Luis Costa da Açorbordados.

– Câmara Municipal de Angra do Heroísmo (CMAH) Com que idade se envolveu nesta atividade ?
Luís Costa ( L.C) 16 anos, trato só da parte comercial do centro que foi fundado em 1945.

CMAH – A família teve alguma influência no seu interesse por esta arte ?
L.C – Não tive influencia, vim trabalhar para aqui por acaso, tudo começou por ser um emprego de verão que acabou por se prolongar e continuar, o que fez com que eu aumentasse o interesse pela área de negócio dos bordados.

CMAH – Atualmente trabalham com quantas bordadeiras ?
L.C – Trabalhamos com cerca de 300, espalhadas por várias freguesias da ilha terceira.

CMAH – Explique como funciona o processo de trabalho ?
L.C – É uma industria 100% manual, o desenho que se pode ver nos bordados é criado através de desenhos originais, desde 1945, estes são criados/desenhados por mim em conjunto com outra desenhadora. Após criado o desenho, (em papel vegetal) é necessário picotar o mesmo, com uma agulha muito fininha com o auxilio de uma máquina de pedal.
Após o original estar desenhado, colocam-se duas ou 3 placas por baixo, ficando assim 3 chapas do mesmo desenho original. Depois procede-se à estampagem com linho branco ou cru, sendo estas estampagens distribuídas pelas bordadeiras das várias freguesias da ilha e recolhidas assim que concluídas.

CMAH – Os seus filhos/familiares mais novos demonstram o mesmo interesse pela sua área?
L.C – Não tem grande interesse, apenas eu e a minha mulher, temos interesse por esta área.

CMAH – O artesanato é a sua profissão ou é uma ocupação/fonte de rendimento extra ?
L.C – É a minha atual profissão, sendo já responsável pelo centro há 31 anos.

CMAH – Sente dificuldade em captar/despertar o interesse das novas gerações pela sua arte?
L.C – Sinto algumas dificuldades pois , o bordado é uma arte que dificilmente será levada como profissão a tempo inteiro, a atividade funciona como um incentivo para a reforma das bordadeiras, não havendo grande interesse nas gerações mais novas para iniciar a prática da arte.

CMAH – Classifique a evolução da sua arte nos últimos 20 anos ?
L.C – Há pontos de bordado que se foram perdendo ao longo dos últimos anos, por serem de difícil execução implicando um grande esforço visual, havendo por sua vez uma inovação na parte dos desenhos, na utilização de novas cores no linho e nas linhas. Há também uma mudança por parte do público/cliente final recaindo a sua preferência nos últimos anos por trabalhos menos elaborados.

O inicio do bordado é o ilhós e o cheio branco a branco, tendo surgido mais tarde outros tipos de bordados como o bordado cru. Há cerca de 30 anos começaram a surgir os trabalhos em bordados com cores, por exemplo as ortências e os bordados de natal com a cor vermelha. Tem havido uma evolução progressiva da arte do bordado que cada vez mais se adaptada ao gosto e tendência dos clientes e gerações.

CMAH – Qual a sua maior fonte de rendimento a nível de clientes? Habitantes locais ou turistas ?
L.C – A maior fonte de rendimento são os turistas, pois os habitantes locais procuram mais a matéria prima para bordar em vez da obra final já trabalhada e concluída.

CMAH – As suas vendas variam com a sazonalidade (épocas do ano, Verão vs Inverno) ?
L.C – O Verão é a altura do ano em que temos maior rendimento aqui no centro, nomeadamente entre os meses de maio e setembro.

CMAH – Como analisa a continuidade e longevidade da sua área de artesanato ?
L.C – É uma área que à partida terá garantidos mais uns 30 anos de vida , não se prolongando por ai em diante, devido a uma evolução dos tempos e dos gostos das pessoas e devido também à diminuição das bordadeiras que produzem os trabalhos, existindo por isso uma tendência para desaparecer no futuro.

CMAH – Qual o fator que mais diferencia a sua arte das outras ?
L.C – É um artesanato artístico, pois todas as peças são peças únicas, não existindo uma igual à outra, mesmo que seja a mesma bordadeira a executar não existem peças iguais. São peças que tem uma grande durabilidade e que perduram ao longo de várias gerações. Desde que sejam bem cuidadas as peças podem durar até mais de 100 anos.

CMAH – Se tivesse que expor o seu trabalho em algum país europeu, qual escolheria? Porquê?

L.C – Apostaria em países como a França, Espanha e Itália, pois são países com povos que demonstram grande interesse pelo bordado manual.


CMAH – Na sua opinião, como classifica os apoios dados ao artesanato?
L.C – São apoios interessantes e auxiliam quem quer fazer investimento na arte.

CMAH – Tem se falando muito na modernização dos processos de artesanato, concorda? Porquê?
L.C – No caso dos bordados o não concordo pois a única coisa a fazer seria substituir as bordadeiras pelas máquinas perdendo-se assim o valor das peças.

CMAH – Qual foi o momento mais feliz/marcante da sua carreira, o mais difícil e mais engraçado ?
L.C – O momento mais feliz, não é bem um momento mas sim todos os anos desde que trabalho nesta área, pois tenho muito gosto por esta arte. O momento mais difícil, posso considerar que são estes anos a partir da crise, pois tem sido anos mais complicados para o negócio, o que tem implicado o algumas mudanças e esforços, de forma a ultrapassar as dificuldades financeiras.

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